Publicado por: contudo | 8 julho, 2014

parabéns, felicidades.

pousos e decolagens mentais como um desejo enorme das turbinas que explodem
arrancando de mim o coração que voa sempre que te vê
risonha nas fotos que eu
até salvo elas no meu celular em uma pasta chamada
bonita
e tenho o desejo de conquistar as sete maravilhas do mundo mas a primeira é você
ninguém no universo pode te admirar mais que eu nem escrever pra ti como te gosto
só que eu peço desculpas pela distância que existe e me culpo.

bom dia, que as alegrias te acompanhem a cada segundo
realize tudo que deseja, salve a terra, as pessoas e os cãezinhos da fome
um a um como os sorrisos que te dou de presente daqui
não tenha medo da vida que vem pela frente porque você é capaz do infinito
ame como eu,

te amo, tão grande quanto o silêncio que as vezes fica.

Publicado por: contudo | 15 junho, 2014

mensagem

escuta, eu sei que fui estúpido e que o silêncio com silêncio se responde.
mas é que algumas verdades precisam ser ditas, é isso que diz o manual do impulsivo.
primeiro: não importa, eu morro de ciúmes de você e não tenho ciúmes de mais ninguém.
segundo: eu tô me corroendo por dentro com a possibilidade de você não acreditar em nada do que digo, só porque eu já fui um idiota outras vezes (o que é justificável, e eu entenderia perfeitamente, mas ainda assim, peço que me leia e acredite. só isso).

eu gosto de você e sempre soube disso e claro que fico com vergonha disso estar escrito assim de maneira tão leviana, queria que isso fosse mais especial dito. mas eu preciso dizer, antes que seja tarde.

eu já fiz muitas burradas na minha vida. já fiz muitos versos pensando em você também, quero dizer, eu idealizei coisas com você. não foram duas nem três noites colocando a cabeça no travesseiro e pensando em você até dormir. foram várias.

mas eu me afastei. e não só de você, mas de mim mesmo. quem eu sou odeia quem eu tenho sido. me afastei de Deus, da família, dos meus princípios, durante algum tempo, eu perdi a linha. até que pirei (enlouqueci de fato, qualquer dia te conto). cheguei na beira do abismo mental.

e isso fez toda a diferença. foi uma benção. uma luz de Deus para mim, um novo chamado. um desafio para que eu escolhesse o que quero pra mim. uma clareza pro meu coração. e desde que isso aconteceu, tenho pensado muito em você e na burrada que fiz. eu quero consertar as coisas. quero dizer, eu quero que você me desculpe. eu sempre fui sincero com você nas coisas que te disse e escrevi, eu só fui medroso em enfrentar as coisas que sentia.

não sei se isso vai mudar o que você pensa, mas eu espero que sim. eu não sei se o que sentia por você era recíproco, mas eu acho que sim, e sofro mais. eu te peço desculpas, principalmente, e nada mais importa. um dia alguém me disse, tempos atrás, quando eu perguntei quando entenderia o que sinto, e essa pessoa disse: “no momento em que for de verdade, você vai saber. você vai querer fazer acontecer, não importa como seja o desafio”.

eu quero fazer acontecer. não importa. eu não vou desistir de você.

Publicado por: contudo | 19 março, 2014

Fiquei morrendo de ciúmes de você

A verdade é essa. Fiquei morrendo de ciúmes de você. Não sei quem ela era, mas devia ser alguém que mexe com você, seu olho ficou de um verde ainda mais ofuscante. Você não parou de mexer na nuca, pra deixar o cabelo desordenado, daquele jeito que faz quando quer ser charmoso, tímido sem deixar claro. Eu sei que ela é bonita, muito bonita, com aquele lenço na cabeça e carinha de princesa sueca. Dissimulada.

Foda-se essa garota, o seu almoço era meu, era comigo que você tinha ido, era comigo que deveria ficar sem se mexer, sem deixar de me olhar. Você não tinha o direito de levantar da minha mesa só pra dar um abraço forte enlaçando o braço na cintura dela de leve, como se aquele fosse um caminho conhecido e agradável, percorrido algumas vezes. aliás, nada disso importa, eu só queria a sua atenção completa. Eu tenho esse direito.

Não importa se eu não te quero. Não importa se você é um moleque mais novo com uma postura admirável e que faz todos prestarem atenção no que diz e parece saber muito do que diz. Não importa se você é engraçado e com um humor inteligente e pertinente. Ou pior, com momentos blasè, um jeito de quem parece querer desaparecer do mundo e que só fala nos momentos certos, como se nada ao redor realmente importasse sem ser você. Nada disso me afeta, porque eu não te quero. De egocentrismos como os seus, já passei há muito.

Eu não quero trocar tudo o que já tenho e construí por algo louco e sem sentido que aconteceu do nada. Já tenho quem me ame e não diz olá pra qualquer uma no restaurante. Gosto do conforto, de ser do jeito que está. Eu já tenho a minha segurança e você parece viver numa outra dimensão. Parece viver em um jogo, e um jogo em que tudo é voltado a levar meninas pro seu quarto e fazer com que elas desapareçam antes do final do noite. Não quero suas noites, só quero uma parte ínfima do dia, só quero que você sente de frente pra mim enquanto come e me olhe como uma meta inalcançável dessa trama. Simples: sou mulher demais pra ti.

Será que essa menina bonita foi uma das que caiu na sua lábia? Ou será que você realmente se apaixonou por ela como escreve nesses versos fajutos em vastas tentativas de ser um galanteador à moda antiga? Admite, você se expõe seguidamente ao ridículo. Tão ridículo quanto o sorriso bobo com o qual ela te fez voltar pra mesa.

Faz parte da cena? Quer me fazer sentir algo? Não vai conseguir. Eu não sou pra você mais do que uma ótima companhia de almoço. Não importa se você responde “ninguém que importe” quando pergunto quem era. E não sorria quando eu respondo “lógico que não” pra sua pergunta sobre estar com ciúmes. Não importa.

A verdade é que eu fiquei morrendo de ciúmes de você. Só que eu não vou pro seu quarto essa noite. (A menos que você enlace minha cintura exatamente do mesmo jeito que fez com a dela. Pra isso, orgulho nenhum tem efeito).

Publicado por: contudo | 10 março, 2014

Viciada

Se quiser, eu faço ela querer o que eu quiser. Eu sou propaganda: desperto desejo, vendo sonhos, mostro como você queria ser. Mas você nem percebe que consome tudo menos a mim. Sou só a foto da garrafa gelada que te deixou com tanta vontade, não sou feito do que vai matar sua sede. Eu só vendo. Vai querer?

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Bebida mesmo sai bastante. Alcoólica, claro. Ou você acha mesmo que é por acaso que depois da 3ª cerveja ela pediu tequila? Eu moldei e escoltei aquele fio de pensamento. Acho que do meu travesseiro até o balcão levou uma semana e nesse tempo virou um impulso tão forte que desceu queimando.

Pra me tirar da cabeça, tequila. Pra tirar a tequila da boca, limão. Pra tirar o amargo, doce. Pra me tirar do sério, me liga. Pra tirar tua roupa, eu atendo.

Moda tem resultado também. Quando ela escolhe o que vestir quando vem me ver, na verdade escolhe algo que não quer precisar me falar. Já reparou que toda mulher carrega um discurso? Cada peça revela pelo menos uns 5 parágrafos sobre sua dona. Maquiagem, tatuagem, acessórios e perfume são as partes grifadas, releio.

Engraçado como a maioria retira o que disse até o fim da noite. E então me fala algumas coisas que não usaria em público.

Eu queria ser o episódio favorito da tua série, não queria te ver de quatro assim tão rápido. Queria ser uma música nova que você ainda estranha, mas vai acabar viciando, porque é da banda que você mais ama desde sempre, em vez de ser o vício e só.  Queria ser um pedaço do seu sonho mais gostoso, em vez de fazer parte da rotina que devora tudo sem vontade, só por comer, sem revirar os olhos, apertar os dedos e gemer como você.

Fazer você comprar o que não custa nada desperta o pior em mim: vendo o que é mais fraco cada vez mais caro e cada vez mais. Até que chega o dia em que eu não tenho mais nada pra você. Você entra em desespero, chora, grita, pede. Eu só vendo. Você que não tem mais como pagar.

Publicado por: contudo | 28 janeiro, 2014

acabou

continuo acordado, mas na janela e rádio as estações têm mudado
nesse meio tempo, uso algumas coisas que me envenenam
não ligo, vou ficar legal.
nenhum dia em que não tenha pensado em ti
na verdade, nas coisas pra te dizer
e poder sair rápido, ofegante e leve:
“acho que já deu, acabou”.

em quantos estacionamentos a gente já se viu?
ou foram várias vezes no mesmo, de um monte de jeitos diferentes.
tua calça mais rasgada, o batom mais vermelho
meu cabelo mais rebelde, outra dor no joelho
nem de longe aquele neon do teu quarto
que me hipnotiza
ou qualquer verso meu na tua parede
eles agora enfeitam a tua gaveta

o copo não enche sozinho e o meu
vai ficar vazio, por enquanto
nada socialmente aceito e melhor não comentar
sobre o que quis dizer aquela mulher risonha
que disse não saber se éramos um casal
mas que, se sim,
o mais lindo que ela já tinha visto
“desculpa, eu precisava falar”, ela disse

eu coloco a culpa toda no teu cabelo
que me prende, me enrola me deixa sem ar
me paralisa, derrota, sufoca por não saber explicar
todas as vontades que pouco a pouco me dá
sem que eu perceba os teus dedos
ásperos e sem o mínimo de cuidado
agarrarem as listras horizontais da minha camiseta
e me levarem até tua boca
e sugarem pela última vez minha paz

lado a lado entre o meio-fio e a rua ladrilhada
porto alegre na madrugada
tão viva, movimentada, pelo calor que expulsa as pessoas
da frente do ventilador da sala
cada um quer seu próprio giro
aquela espairecida sem destino certo
e eu ali, perdido à minha própria sorte

me pediu pra ficar, pra não ir embora
mas nós dois sabemos
não queria que eu ficasse
tua vida é essa, agora, não tem a ver comigo, entende
eu, a partir de hoje, sou o melhor cara que você já conheceu
e nunca quis

“eu tô sentindo o seu coração, ele é meu”
você diz por fim e
talvez seria, se eu já não tivesse perdido por aí
cada parte mínima, detalhe, em suspiros que escaparam
em nenhum dia que não tenha pensado em ti.

Publicado por: contudo | 20 novembro, 2013

estão morrendo os velhinhos

I.

quero entender
porque o nosso tempo
é o que eu lembro
com mais intensidade
abandono até meu blasè
e ainda admiro você
com um pouco de saudade
só não deixo meu coração saber
que não tem jeito de ser verdade

II.

estão morrendo os velhinhos
da cidade onde passei parte da minha infância
eles já eram velhinhos naquela época
de usar calça na altura do umbigo, camisa tom creme e boina
mas agora estão morrendo, não sufocados pelo cinto da calça
mas entubados
em fotos com crianças de olhos claros
filhas daquelas pessoas que eram as crianças na minha época
estão morrendo os velhinhos, com curativos na garganta
e olhares tristes
pouca memória
eu lembro deles, mas eles não lembrariam de mim
nem de vestir a boina, depois de coçar a cabeça
eles morrem aos poucos, um a um
eu morro um pouco com eles.

III.

essa noite eu morri
não foi escuro nem pesado, nem dor eu senti
quando morri saí de mim e flutuei por estrelas
que eram verdes e azuis numa dança que lembrou a aurora boreal
eu morri num terraço
com piso marrom de argila
e voei perto de muros brancos em algum lugar do norte
não deu tempo de contar pra ninguém
mas explodi de leveza
e gritei do fundo do peito
como se fosse a única coisa que importasse
“obrigado, Senhor!”
não há maior redenção
do que morrer e continuar sereno.

IV.

injustiça essa inflexibilidade de uso compartilhado entre coisas
concretas e abstratas
me disse a vizinha da porta mais ao canto da minha
quando pedi um tantinho de açúcar pra adoçar o chá
não tinha, no máximo um tantinho de farinha
disse que a única coisa que lhe sobrava no mês
era tempo
tempo ela tinha de sobra,
tinha tempo, não tinha açúcar, nem dinheiro e só um resto de farinha
reclamou do salário e me pediu um mínimo
de compaixão, a vizinha
açúcar não tinha
mas razão tem ao dizer que
o tempo pode até ser abstrato, mas pesa nas costas
e na falta do açúcar palpável, pesa também na barriga vazia.

V.

parece que toda noite só durmo
os dois nove minutos
que tenho coragem de adiar
no alarme do celular
e o resto do tempo entre madrugada
e manhã
não servem pra nada
só pra rolar pra lá e pra cá
suando a camiseta nova do natal passado
bagunçando o lençol de elástico
levantando lento pra olhar no espelho
e ter medo de não me enxergar, mas umas árvores do outro lado
de ser uma janela
aqui dentro não é quente ou frio
não é vazio
debaixo das cobertas
eu mantenho aquecida a preguiça de ver o mundo lá fora
vai que eu goste
imagina
vai que eu goste

Publicado por: contudo | 28 outubro, 2013

Mar aberto

Eu nasci mais perto do Uruguai do que do mar. Perto dos campos infinitos, do horizonte reto, não me vejo nesses relevos do mar aberto. Não sei por que vim pra ficar, mas sei quem me trouxe e levou de volta várias vezes. Quero ser justo, quero estar perto. Então escrevi pra lembrar coisas que a gente esquece de dizer.

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Aqui venta muito, bagunça a cozinha inteira e espalha mate pela pia. A água quente expulsa o frio no peito e eu tenho certeza que o vento leva todos os meus pensamentos até ele. Logo qualquer pretexto pra voltar vira farelo e desce pelo ralo junto com a erva que caiu. Não tem um dia que eu não pense nele.

Os pés gelam com a água do mar, mas nem cogito hesitar. Puxo o barco, a corda estica como estica a corrente de um cachorro furioso. Passando a arrebentação as ondas encontram meu rosto e em vez temer me afogar só agradeço por não ser um sem sal. Enquanto isso o vento empurra a alma contra o temporal. Preciso remar, tenho que desligar.

Aguento o repuxo. Volto esgotado, mas lembro do remo que a gente achou e sei que posso contar com ele. Essa certeza é a firmeza para equilibrar o que a distância chacoalha. Se é certo navegar assim? Do ponto de vista do mar é a praia que balança, então onde eu estiver vai ser assim. Só quero ser justo, buscar tudo que me mostraram. Só quero estar perto, dividir tudo que conquistamos.

O mar é como a saudade. Não poupa ninguém. Mas dizem que o mar também chora. Eu sigo louco atrás do sol e a fúria é tanta que ninguém pode acalmar. Por isso vou pelo mar. Volto quando me encontrar, com o sol gravado no peito pra gente acender a churrasqueira. E que banquete melhor para os lobos do mar do que uma ovelha na brasa?

Publicado por: contudo | 21 outubro, 2013

Despressurização

Eu destravo a mesinha e te colocam ali. “Aceita, senhor?”. Tinha que ser simples assim. Sem todo esse caos e excesso de bagagem. Eu destravo. Você aparece. As luzes diminuem e já posso reclinar o assento.

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Te olho por quase dois minutos. Até fecho a janela pro céu não atrapalhar a gente. Quero olhar só pra ti. Ligo aquela luz de leitura e giro até te iluminar bem. Quero olhar só pra ti. “Licença senhor alguma bebida?” ouço em tom impaciente. A aeromoça deve estar repetindo pela 3ª vez. Sem tirar os olhos de ti, peço água.

Ela serve e tem teu gosto.

Bebo rápido, 3 goles largos. De respingar pelos cantos da boca. Lembra teu beijo. Mais de uma pessoa se incomoda com minha sede, tem gente que virou a cabeça pra entender o que era aquele desespero. Mas nem repararam que tinha uma moça na minha mesinha. Meio de lado, pernas cruzadas. Ninguém reparou. O que está acontecendo?

Puxo o ar, cerro os lábios pra fazer som de v e te recolhem antes de eu emitir som. Vejo te levarem antes de eu conseguir dizer “volta pra mim”. Vejo te colocarem num daqueles carrinhos que te trouxeram. Eu tento levantar e o cinto me senta de novo. Teus olhos não saem dos meus enquanto tu é conduzida pelo corredor estreito e some atrás da cortina.

Do copo eu ouço “você que foi embora.” Deixaram o copo. Reclino muito a cabeça pra conseguir beber algo e tua última gota escorre. Não tem mais teu gosto. Tem o gosto da tua lágrima. Te beijei chorando da última vez.

Desço depois de todos os passageiros. Não quero ver todo mundo encontrando quem ama. Em terra tudo é inerte e gira sem sair do lugar. Gira o relógio que caçoa da minha espera. Giram, bambas como minhas pernas, as rodas dos carrinhos. Gira a esteira de bagagem e perto dela espero meu coração, envolto em plástico-bolha e com um adesivo vermelho berrando “frágil”.

Pego, abro e não me surpreendo: quebrado de novo. E eu sempre digo pra tomarem cuidado.

Publicado por: contudo | 17 setembro, 2013

só no seu travesseiro consigo sonhar

I.

o quarto escuro guarda histórias sobre nós
talvez ele já tenha sido uma biblioteca que não resistiu à maresia em outra hora
e que agora só vê
o mergulho no lençol
as ondulações do teu cabelo recém lavado
e os enlaçados das nossas pernas
que me fazem dar pé no raso
só no seu travesseiro consigo sonhar
isso é um caso sério, quando você vai embora
até troco o lugar, na cama
e afundo ali.

I. e meio

meus começos de dia são tímidos
quando já passa do meio da tarde
e pela tv
se vê jogar o time dos
outros
é o fim do final de semana
e o início do fim de sem ana.

II.

bruna, me pega pela mão
me leva pra fora do contexto
eu vou te seguir por aí
você continua bagunçando as coisas por aqui sem saber
vai, faz com que eu veja o que você vê
me deixa te ajudar a carregar as sacolinhas do mercado
adoro o jeito que tuas roupas se expressam coloridas na noite
enquanto eu meio cego limpo a lente do óculos na tua camiseta
eu sei mais do que eles sobre você
senta comigo na sacada pra sentir a noite fria do desterro
e da névoa que passa vez em quando
dos quadros na parede
não te dou nenhum presente mas o laço faço com meu braço ao redor do teu corpo
fica
só assim eu posso ser quem sabe
o motivo do teu riso e choro
e quem relê tudo que ja foi dito entre nós
pra te fazer acreditar que é tudo verdade. e sempre foi.

III.

vou te dar um beijo na minha sacada
o parapeito é baixo e suas costas vão ficar curvadas
te dobro com o peso das coisas que eu sinto
meu cabelo todo bagunçado
combina com o resto do apartamento
ainda é cedo e você cabe no meu casaco comigo dentro
te enrolo com meu abraço pra sempre no dia de hoje
enrola a língua de sono
fingindo um cansaço pra ficar aqui mais tempo
como se precisasse
ainda temos o dia todo e enquanto ninguém dormir
o hoje não vira amanhã

IV.

dizem que é um desperdício de vida
mas a gente meio que vive pra se perder nos vícios
e se encontrar nos reflexos do vidro de algum canto da casa

IV. e meio

filtros amarelos um após o outro
a cada visualização dos ínfimos infinitos das tuas fotos
um dia te convenço
te trago pra mim
como se já não tragasse o ar gelado
que a noite sopra dentro do pulmão
ou no rosto, pra ajudar a tirar ciscos dos olhos

V.

hoje peguei o sol de saída
e pedi pra ficar mais um pouco
tirei umas fotos enquanto se destraia
mas quando percebeu, tímido
correu pra trás das nuvens
e me deixou aqui
vendo na lente da câmera um dia indo buscar a noite
que marcou chegar pelas sete
talvez chegue antes, talvez atrase
depende do trânsito
que encontrar na passada da ponte
mas ela vem
pra me abraçar com saudade
como se me ver esperando
fosse alguma novidade

V. e meio

hoje eu senti saudade de verdade
não é bom
essas longas filas de semanas
deixam as coisas mais parecidas
com os caixas rápidos dos supermercados
a impressão é que
não vale a espera pra comprar só dois itens

VI.

aqui dentro é uma batalha diária
entre o senso do ridículo
e o sentimento exposto
a dureza da responsabilidade
e a fragilidade da cabeça quando se entrega finalmente depois de horas
à almofada
você não é complexo, você não é nada
é só mais um moleque na idade de errar
que escolheu ser grande antes da hora e agora
não pode parar pra pensar
sobre o que poderia ter sido

VII.

choques anafiláticos
em verbetes pragmáticos
traços mal saídos
tratar o transitório como secundário
buscar juntar dois corpos num mesmo espaço
que outro dia qualquer um diria
ser apenas uma folha em branco
esquecida, jogada
em cima de um banco

but don’t know how to say it
i guess that i can only say one thing:
girl, i been bad again

Publicado por: contudo | 9 setembro, 2013

Segundo discurso

Em 2011 eu soube que seria orador da minha formatura em Jornalismo. Dois anos depois disso, fiz as pazes com meu discurso:

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“Mesmo que vocês já estejam cansados da cerimônia, nós precisamos falar. Mesmo que todos estejam com a cabeça na festa que ainda está por vir, nós precisamos falar. Mesmo que o cotidiano ensurdeça ou distraia tanto que ninguém queira escutar, nós precisamos falar do cotidiano. Mesmo que tentem nos calar novamente, como aconteceu outrora no Brasil e ocorre em países vizinhos neste exato momento, nós precisamos falar para apresentar aos senhores, familiares e amigos , histórias que vocês talvez não conheçam, sobre realidades que talvez prefiram não conhecer.

Foram pelo menos quatro anos de estudo para que finalmente aprendêssemos que precisamos falar. Não, não estudamos maneiras de coletar, redigir, editar e publicar informações, ao contrário do que prega a grade curricular. Estudamos e estamos oficialmente habilitados desde agora a encontrar a melhor maneira de sabotar o silêncio, seja dando voz para quem nunca foi ouvido ou fugindo da visão distorcida de situações absurdas camufladas na rotina.

Guiados por livros, professores e colegas, sabemos hoje que este processo começa quando percebemos o mundo de verdade, não quando procuramos pelas verdades do mundo. Confessamos que seria muito mais cômodo subir até aqui, encher a boca com discursos sobre verdade e nosso compromisso para com ela, mas preferimos deixá-la nos livros dos filósofos e teóricos da comunicação. Para esta nova etapa de nossa carreira no jornalismo, acreditamos que a melhor forma de encarar a verdade é esquecendo que ela existe. Isso não diminui nossa responsabilidade, pelo contrário, deixa ela ainda mais viva. Dizemos isto porque quando a verdade se torna algo inalcançável, maior e mais viva ela estará presente em nosso trabalho, exigindo os melhores esforços para que o público – e não nós – construa a verdade, com base em nossos relatos.

Sobre nossos ombros recai uma responsabilidade ainda maior que a verdade, que é escolher quais fatos podem alcançar o status de realidade. Reforçamos que tal escolha não é questão de tomar partido e ficar do lado do vilão ou mocinho, até porque hollywood só tem vez no jornalismo quando serve de pauta. Escolher, para nós, é escolher duvidar. Duvidar até do que dá pra ver, só pra ver no que vai dar.

Duvidar não é caminho para encontrar uma certeza, nem uma verdade, mas é a melhor maneira de tornar nossas escolhas mais nossas. Isto nos leva a pensar no jornalismo independente também como uma utopia. Chega a ser chato ver como em tantos países que lutaram pela liberdade, a independência não passa de feriado. Ser independente não é apenas fazer seu próprio caminho, já que o tolo faz isso muito bem ao só andar para a frente, e nem ficar parado, como o sábio que só faz refletir.

Ser independente é equilibrar respeito e inspiração. Respeito para entender que o mundo exterior que conhecemos e o universo interior que desconhecemos influenciam no livre arbítrio, mas não podem servir de álibi para aqueles que pregam o certo, praticam o errado e colocam a culpa no patrão ou no sistema. Inspiração para redescobrir algo fantástico sobre o dia-a-dia todos os dias e entender o verdadeiro potencial do chamado 4º poder, que um olho bem escrito é capaz de despertar milhões de olhares interessados.

Talvez nem todos um dia trabalhem em uma redação, mas a nossa próxima e mais importante pauta já está decidida. Neste momento, em vários locais do mundo, livros incompletos de história estão sendo impressos. É papel de cada um dos presentes, agora formados em jornalismo, decidir o que será escrito nos próximos capítulos da história da humanidade. Obviamente não podemos decidir se serão capítulos tristes ou alegres, afinal de contas estamos falando de uma espécie que falha e acerta, mas podemos garantir que estes capítulos vão existir. Errar, todos aqui sabem bem, é humano. Apurar, 46 de nós aqui sabemos muito bem, é jornalístico.”

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