Publicado por: contudo | 15 Outubro, 2009

O que vai e o que fica

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Clarice, minha pequena, em teus sete anos de diálogo com o sol, aprendeste que a vida é um caracol de dentro pra fora, aprendeste que é fácil ver o som do vento e ouvir o cheiro da terra, que podes voar em bando deitada na grama molhada do jardim de tua mãe. Tenho a suspeita de que aprendeste todos os segredos da vida e que guardaste todos eles debaixo do teu pequeno travesseiro para poder mergulhar nos sonhos como quem procura ouro no mar.

Saiba que me vou, mas não sem levar teu sorriso de lua minguante cravado nos olhos. Alias, se pudesse pedir algo, pediria para continuar te vendo, mesmo no outro lado. Te ver pra sempre. Sorrindo.

Sexta passada trouxeram a noticia de minha ida num bilhete, desses que se usam pra pagar o trem aos domingos, muito apropriado para alguém como o teu velho, que fez da vida um delirante trapézio de algazarras.

Sabe, meu anjo, queria levar um pedacinho de ti. Queria mas não posso. Nessa louca armadilha em que nos metemos eu e tu, me ensinaste a devorar as nuvens como se fossem algodão doce, me ensinaste que o sorriso de “boa noite” é um labirinto de cores sem fim. Coisas que os livros não ensinam.

Quando eu partir, não chora. Não sem antes me emprestar um guarda chuva, porque quando tu chora, chove vidro moído dentro de mim.
Sorria. Abre a porta e vislumbra o vento dançando em tua sala, agradeça e peça perdão pela demora. E canta, porque cantar é menosprezar a desgraça de viver. Canta que eu escrevo. Porque escrever é gozar o diabo em preto e branco. Pega na mão do teu avô e caminha pelos nós das linhas turvas de uma vida que passou, um dia, teus netos hão de fazer o mesmo e aí saberás que viver não foi pecado.

(B.G)

Publicado por: contudo | 14 Outubro, 2009

Da Princesa ao Bobo da Corte

Já vimos o clamor desesperado de um Bobo da Corte, para que a sua princesa voltasse à razão:

http://contudo.wordpress.com/2008/10/24/do-bobo-da-corte-a-realeza/

Pois que agora ela responde…

Sim, querido, falhei e não podia. Desisti e não deveria. Você que só quer me ver sorrir, sabe o quanto sofri, mas não merece passar a amargura raquítica que passou meu coração.

Aquele que um dia disse belas palavras me prometeu o amor, para longe foi sem nem mesmo causar temor, só o ódio, por me fazer acreditar que seria mais feliz do que um dia fui ao seu lado, caro amigo.

E agora, olho ao longe no horizonte, o sol se põe, se esconde contra a terra, para reaparecer amanhã do outro lado. E disso posso ter certeza? Brilhará novamente em minha vida, ou me abandonará na escuridão?

Nem as dúvidas me restavam mais, só me restou o seu clamor, para que voltasse a ser e sorrir, a pensar e sentir. E o que me adiantava chorar ou sentir ódio. Agora eu lhe ouço, caro amigo. Agora me lembrou a mim, sou princesa.

Voltei, graças a você, caro amigo, para quaisquer um mero bobo da corte. Para mim um bobo, mas nunca um tolo. Aliás, se és um bobo, que sou eu?

Não mais haverá injustiça, sou real, nem nada com o coração; ele é vital, bate e espalha amor. O amor faz com que percamos a razão. Mas sem amor, qual a razão da vida?

Publicado por: contudo | 6 Outubro, 2009

Letras de Reflexão

Estávamos Eduardo e eu, ontem, conversando sobre algumas coisas. Nada de muito sério ou relevante. Ainda assim, o assunto sobre o qual falamos me deixou pensativo, refletindo, com uma vontade imensa de escrever.

De qualquer forma, eu postaria um texto hoje, mas algo mais descontraído, talvez mais uma poesia que fiz na aula de Teorias do Jornalismo. Mas, como aprendi nesta própria aula, a pauta quebrou.

Vou apenas colocar a minha interpretação das coisas, do que falávamos. Talvez Eduardo ainda faça uma análise mais completa, pois como eu falei: “isso daria um bom post”. Enfim, vamos a ele.

Comentar sobre a vida é como musicar poesias. São versos, palavras soltas, a favor das quais lutamos para rimá-las. Não obstante, a música faz parte de nossas vidas. Marca momentos, alegrias e tristezas, normalidades ou formalidades.

Ontem, o Eduardo me mostrou uma dessas que levamos conosco no pensamento. O gosto na questão de estilo é relativa, mas a letra, não há quem não se sinta dentro dela, vivendo um pouco de cada palavra.

O nome da faixa é “Day ‘n’ Nite” do rapper Kid Cudi e mostra um homem em ponto de reflexão. A letra toda é muito constante e boa, mas um trecho chama a atenção:

“When the time slows up and creates that new, new.


He seems alive, though he is feelin blue”

Desacelerar o tempo e criar o novo, fugir da rotina. Sair dela, dar um passo pra fora. Refletir.

Parecer sobreviver, mesmo triste.

Sobreviver tristes, queridos, é viver na rotina. A nossa proposta aqui no blog é dar um clarão nessas nuvens da rotina. Te fazer sorrir, te fazer pensar. E ainda mais: sorria e reflita muito mais além que aqui. Sorria pra vida.

“To free his mind in search of…”

Pra libertar sua mente na busca de…

Complemento: daquilo que te faça feliz. Viver feliz, não apenas sobreviver triste.

Publicado por: contudo | 1 Outubro, 2009

O ENEM foi cancelado

Por incompetência.

Aliás, uma dupla incompetência: do MEC, que de uma forma inacreditável, deixou vazar a prova mais importante do país, que dá acesso ao ProUni, e serve não apenas como avaliação da capacidade dos alunos de Ensino Médio, mas a partir desse ano, como um complemento no acesso ao Ensino Superior.

A outra, obviamente, do “inteligente” senhor que resolveu informar um jornal, leia-se um “JORNAL”, de que estavam em poder dele, cópias das provas. Quanto este indivíduo tiraria se fizesse a prova? Imaginem a qualidade da sua redação…

Mais de 4 milhões de brasileiros estão inscritos para realizar as provas, que devem ser adiadas por cerca de 45 dias. Alívio para alguns, traduzido em mais tempo para estudar.

Toda esta novela é digna do Brasil. Mas é um golpe. Achamos que a corrupção só vinha de cima, políticos e donos do poder. Saber que dinheiro é mais importante que a honra ainda choca quando se trata de pessoas comuns. Aquelas que trabalham de sol a sol pra sustentar os filhos.

E mal tem tempo pra ver na televisão, ou ler ou ouvir essa barbaridade. Tem que dormir cedo, pra não ouvir o choro do filho com fome. O choro de uma criança não vale R$500 mil. Vale muito mais.

E faríamos tudo igual. Reflita.

Publicado por: contudo | 29 Setembro, 2009

Serás Infinito

Perdoaria?

Perdoaria?

Ah! Retumbantes histórias de amor
Que escritas com prolixidade em livros
Ganham vidas e papéis e cenas
Novelas, teatros e cinemas
Mal sabem os expectadores
Que verdadeiro sentimento
Só o de viver amando e nunca encenando.
Ele a amava com a vida
Cada inspiração e transpiração
Batimentos do coração
Acertos e erros sinceros
Tinham um só objetivo: viver por ela.
Era eterno, mas foi findado
E todo aquele amor ficou marcado
A dor da traição não mereceu
Por essa dor quase morreu
De saudades
Disse ela
Você é amoroso
Perdoa meu erro
Respondeu
Se definir é limitar
Então me defina
Caso contrário
Serei infinito
Publicado por: contudo | 24 Setembro, 2009

Ou

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Tem lugares onde nem as letras se atrevem a chegar.
Fendas no espaço que a palavra não alcança, buracos onde a queda termina de baixo pra cima.
E luas que não vemos, ou o céu azul, nú, por onde viaja o sol.
Ou a felicidade que transborda feito a nuvem quando chora ou o silêncio quando canta em notas desconhecidas.
Ou a saudade quando estica, estica e estica mas nunca arrebenta.
Existem mensagens no ar e infinitos atrás das janelas e dos espelhos:  dos espelhos porque repartem a alma. Das janelas, porque libertam o olhar.
E o sorriso em forma de paisagem, a arte do normal, a mais simples e bela arte, porque está ao alcance de todos.
Ou a música, ah! A música.. Que quando tudo falta, traz a primavera e o amor em forma de sussurro ou berra doente de loucura, e então, tudo sobra.
Ou o toque, o toque sem tocar. O toque da troca de olhares, que existe sem contato e traduz a magia do ser pela distância.
Ou o chão que nos circula, ou o infinito com seus muros, sim, porque existem muros alem dos que se vê, distantes de tudo mas presentes em tudo.
Ou o cheiro, que viaja pelos poros da alma e troca de roupa quando cansa.
Ou quem tem o mundo nas mãos e bate palma.
Ou quem tem as mãos amarradas, a boca amordaçada, e mesmo assim produz estrelas, porque sabe que é com os pés que se caminha.
Ou o pó daquilo que não podemos ver, que fala e que ouve, sempre varrido para debaixo dos tapetes voadores de cada um.
Ou talvez, o segredo da mágica que não se tira da cartola e mora nos palhaços que se pintam de cinza e fazem até as pedras gargalharem.
E a poesia que se vê dentro de cada um, cansada, mas sempre pronta pra acordar em espasmos como se fosse feita de choques.
Porque é isso que somos, pedaços de poesia que caminham e que cantam, e a luz que nos reflete é a prova de que somos.
E a vida é o abraço mais longo de todos.
(BG;)

Ou a felicidade que transborda feito a nuvem quando chora, ou o silêncio
quando canta em notas desconhecidas.
Ou a saudade quando estica, e estica, e estica, mas nunca arrebenta.
Existem mensagens no ar, e infinitos atrás das janelas e dos espelhos: dos espelhos, pq repartem
a alma. Das janelas, pq libertam o olhar.
E o sorriso em forma de paisagem, a arte do normal, a mais simples e bela arte, pq está ao alcance de todos.
Ou a música, ah! A música.. Que quando tudo falta, traz a primavera e o amor em forma de sussurro, ou berra
doente de loucura, e então, tudo sobra.
Ou o toque, o toque sem tocar. O toque da troca de olhares, que existe sem contato e traduz a magia do ser
pela distância.
Ou o chão que nos circula, ou o infinito com seus muros, sim, pq existem muros alem dos que se vê, distantes de tudo mas presentes
o tempo todo.
Ou o cheiro, que viaja pelos poros da alma e troca de roupa quando cansa.
Ou quem tem o mundo nas mãos e bate palma.
Ou quem tem as mãos amarradas, a boca amordaçada, e mesmo assim produz estrelas, pq sabe que é com os pés que se caminha.
Ou o pó daquilo que não podemos ver, que fala e que ouve, sempre varrido para debaixo dos tapetes voadores de cada um.
Ou talvez, o segredo da magica que não se tira da cartola, e mora nos palhaços que se pintam de cinza
e fazem até as pedras gargalharem.
E a poesia que se vê dentro de cada um, cansada, mas sempre pronta pra acordar em espamos, como se fosse feita de choques.
Pq é isso que somos, pedaços de poesia que caminham e que cantam, e a luz que nos reflete é a prova de que somos. E a vida
é o abraço mais longo de todos.
Publicado por: contudo | 22 Setembro, 2009

Marley revira no túmulo

A minha ligação com a música se dá em vários graus. Desde o som frenético de uma guitarra pulsando até aos sons eletrificados de um bom psy. No meio desta escala de acordes, minha paixão se intensificou por um artista entre todos. Bob Marley é o nome dele.

Não se trata de uma admiração musical, apenas, se trata de uma admiração pessoal, direta, que se deu no campo antropológico e cultural. Marley representa muito mais do que o estereótipo de Rei do Reggae, representa a força de uma filosofia.

Entrada luxuosa do Resort

Entrada luxuosa do Resort

Consumir SOMENTE o necessário, poupar os animais, poupar o corpo, respeitar o espaço do outro… Isso e muito mais era o que rondava Marley e sua família. Pelo menos era o que parecia, até a semana passada, quando tive conhecimento do novo empreendimento da viúva do jamaicano mais famoso do mundo. Em uma mansão encravada em uma das mais paradisíacas praias das Bahamas, Rita Marley, viúva da realeza do reggae, construiu o Marley Resort, um mix de hotel de luxo com Spa Esotérico.

Quem quiser conferir essa aquisição tem que literalmente ter cacife. Uma diária no hotel-spa pode chegar à US$ 995, o equivalente à R$ 2.190. Para quem acha que este preço já assusta, prepare-se: aquele freguês que quiser tomar um banho de rejuvenescimento com as exclusivas frutas caribenhas desembolsa a bagatela de US$ 90 (R$ 198). Mãos feias? Os Marley dispõem de um serviço curioso, para ser mais precisa um exemplo para os capitalistas de plantão. Trata-se de uma manicura com taxímetro, sim! Você paga US$ 70 (R$ 154) por 55 minutos de tratamento, se este tempo não for suficiente, mais uma quantia deverá sair do seu bolso para ter as mãos feitas.

Minha critica não cai sobre a compra de Rita Marley, qualquer um pode compra o que bem entender, a questão é que ela poderia ter inaugurado o Resort mais caro da face da terra, com as facilidades que quisesse, mas respeitando a imagem de Marley.

A arte de Robert Nesta Marley foi ferida. Os quartos do hotel têm os nomes das maiores riquezas do músico: suas músicas, seus álbuns. Já pensou em dormir em um quarto batizado de Kaya? Este é nada mais nada menos que o álbum mais polêmico de Marley, um dos que o fez ser quem foi e quem é até hoje.

O capitalismo chegou na mais pura e devastadora forma, destruindo filosofias, crenças, atitudes e grandes nomes do passado. O hotel continua lá intacto. A família de Marley vivendo dos louros que ele deixou, e ele? Revirando no túmulo por ver sua filosofia sendo trocada por meras diárias.

Bob na sua essência

Bob na sua essência

Nós, fãs do som pulsante do baixo, do grave da voz da realeza e dos ensinamentos rastas, não nos perdemos no redemoinho das verdinhas americanas, apenas lembramos e cantamos:

”No bullet can stop us now we neither beg nor will we bow

neither can be bought nor sold.

We all defend the right that the children us unite,

your life is worth much more than gold.”

Publicado por: contudo | 18 Setembro, 2009

Feelings

Toda quinta-feira tenho aula de Redação II. Aula muito produtiva e prática. Numa das práticas, aprendemos sobre colunas. O exercício consistia em construir uma, de assunto livre.

Fiz uma coluna social, óbvio. Ironicamente.

O nome da coluna é “Feelings”.

Cabe a você, leitor, julgar se os fatos são ou não verdadeiros.

Punta Del Este – Balneários uruguaios nunca foram o meu forte. Frequentava na época em que ganhava apenas três salários mínimos. Ah, o tempo passa. Juntar dinheiro o ano todo pra fazer compras em Rivera, bobagem. Enfim, campeonato organizado pela PokerStars.com estava divino, gente bonita e muita animação no Conrad Playa Brava. Pude rever o velho amigo Armando Santhomé e beber piña colada.

Porto Alegre – Noite dessas pelas ruas da Cidade Baixa reencontrei o grande amigo, quiçá ídolo (ou fã), Renato Portaluppi. Demos grandes risadas, inclusive sobre a curiosa data 09/09/09, ao que ele comentou: “Enquanto para a maioria 09/09/09 é uma data, pra mim é a nota que três mulheres exigentes me deram na cama.” Esse Renato sempre foi um grande matador, literalmente.

São Leopoldo – Compareci a um evento da prefeitura dessa querida cidade do Vale dos Sinos, a convite do Prefeito, Ari Vanazzi. Mal sabia eu que se tratava de um lançamento habitacional da prefeitura: conjuntos populares. Em comentário particular ao prefeito, no coquetel, reclamei. Sou um colunista social. Social, mas não sociável com populares. Tenho dito.

Florianópolis – Jurerê Internacional continua linda. Jogar golfe e Pólo com os amigos e colegas mais chegados é estupendo. Lounge do Café de La Musique é supimpa. Céu tão ‘blue’ quanto o Label do meu whisky, presente do fã Esperidião Amim. E ainda fui convidado para autografar meu livro na Saraiva do Iguatemi Ilha. Um abraço a todos que puderam prestigiar o belo evento.

Miami- Muitos comentando a gafe da diva Vanusa. Tudo extra-oficial, com colinha e tudo mais. Suspeito que ela tenha usado outra coisa a não ser ‘cola’. Ninguém a entendeu, apenas eu: “Deitado eternamente em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo…”. Faz todo sentido em Miami. Estou no lugar certo.

Publicado por: contudo | 15 Setembro, 2009

Exercícios

Por vezes me pego pensando em ideias pra inovar o blog.

Podem ser textos, ou imagens ou sorrisos.  Por vezes, no trabalho, faço algumas peças publicitárias. Tudo por diversão.

Repito: diversão. São todas amadoras. Nada profissional, sem nenhum compromisso.

Novamente quero pedir a opinião de vocês. O que acharam? O que pode melhorar? Alguma nova idéia?

Sintam-se à vontade. O contudo é de vocês também.

Publicado por: contudo | 4 Setembro, 2009

Seus dias de vida

Abriu a porta com um pouco de dificuldade. Afinal, chovia e além de carregar a mochila, a outra mão estava ocupada com o notebook. Não fazia frio, embora a camiseta de manga curta que vestia igualmente não combinasse com a temperatura.

Colocou o notebook à mesa e ligou-o. A conversa que tivera com a namorada no meio da aula não havia sido agradável, e não esperava que continuasse sendo em casa. Entrou no Messenger, ela não estava. Talvez alívio, talvez frustração.

A hora já estava adiantada, mas o quase litro de café que tomara durante o dia não o deixava dormir. Acendeu apenas a amargura e a angustia. Breve viajaria, se tudo desse certo, para o lugar que mais gostava na face da terra: Florianópolis.

Ainda assim, não conseguia estar tranqüilo. As diversas discussões que havia enfrentado ao longo da semana, sempre em torno da sua viagem o haviam desgastado.

Tentou sorrir, mas não conseguiu. A bem da verdade, as discussões que enfrentou a vida toda o estavam desgastando. Não queria mais ser assim. Cinco meses de namoro. Cinco meses que tentava deixar de ser aquela pessoa fria e calculista a quem todos caracterizavam.

Foi até o quarto dos pais e os observou dormindo.

Quem eram aquelas pessoas tão diferentes dele mesmo?

Sua mãe, com quem não conseguia trocar meia dúzia de palavras. Uma personalidade parecida com a sua, mas tão diferente. Com quem aprendeu a ler, a ser, mas não a sentir. Nunca conseguiu dizer o que sentia para ela. Talvez com receio de não passar informações para o ‘inimigo’, para não ser vitima de alguma chantagem.

Seu pai, alguém batalhador, a quem admirava, mas também com relação supérflua. Como bons homens, falavam de futebol, churrasco e trabalho. E nada mais.

Voltou ao computador. Sentiu um aperto no peito. Aquela não podia continuar sendo sua vida. Muita capacidade, muita inteligência, honestidade e religiosidade. Nada, nada disso estava sendo útil pra ele.

Inconsequente. Esse era ele.

O telefone tocou. Não era ela. Não atendeu.

Antes de dormir, pensou em agradecer a Deus por mais um dia de vida.

Só então lembrou, que na verdade, aquele era um dia a menos.

Um dia a menos pra viver sendo frio e inconsequente.

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