O arrastar das cadeiras no andar de cima surgiu como uma tempestade repentina e despertadora de quem dorme ao pé da janela. Havia ficado ali por longos minutos, não sabia dizer ao certo o quanto, mas com certeza o insuficiente. Claro, estava vazio, estava parado… estava nada.
Ah, aquele arrastar de cadeiras, um arranhar no vinil da valsa preferida dançada com dificuldade de quem não é nenhum exímio dançarinho, só que maior. Preencheu mais que as paredes do ouvido, mas as do peito também. Quando tornou o silêncio, e apenas pôde ouvir alguns pequenos grunhidos aqui e ali, se sentiu vazio novamente.
A tempestade lhe caiu tão bem, molhando a testa febril, embora o que estivesse encharcado eram os pés, não de água mas suor, do nervosismo. Da sua bipolaridade, essa que ama a chuva, enquanto o que lhe faz bem é o sol.
Também ouvia agora vozes, ao seu lado, como se lhe aconselhassem, ou lhe convidassem pra uma dança de zigue-zague, um, dois, três. Não mais de dentro para fora, não mais de arrogância ou pretensão. Nada de auto-suficência, mas sim uma grande, imensa deficiência, muda, densa e rasa.
Não queria escrever, os traços lhe doíam, como doía ouvir a valsa das cadeiras no andar de cima. Queria desenhar, e mudar, rabiscar, deficiente e raso, sem profundidade na explicação. Desenhar como se dança, lá e cá. O antes tão léxico vasto, substituído pelo silêncio, fazendo da mudez seu maior discurso de explicação.
Levantou, pegou a cadeira e a arrastou, com o máximo de barulho possível, em uma dança desconhecida e agressiva, como quem dança de raiva sob a tempestade. Poucos sabem que apenas queria ser notado no andar de baixo, ou qualquer andar. Notado em qualquer lugar.





Lindo, pow!
Necessidade.
Por: Marcelo Rezende em 5 novembro, 2011
às 9:59 pm
Gosto tanto dos teus textos, me fazem pensar em muitas coisas ao mesmo tempo. Lindão.
Por: enfins em 7 novembro, 2011
às 12:24 pm