A noite cai, em desgraça.
O gelo que bate no copo de whisky, para mim, tilinta sons de fracasso. O fracasso de não compreender a razão do mundo exigir de mim aquilo que não entendo, ao invés de ressaltar minhas qualidades. Escondo de mim mesmo ser este o exato jeito que sempre agi com outras pessoas. Noite sempre foi significado de tempo de gente adulta pra mim, enquanto eu dormia e sonhava. Hoje, noite pra mim, é o começo de mais um triste fim. Não fui preparado para ser um cara adulto. Eu que sempre sonhei em ser grande, faço de pedras de gelo num copo de bebida uma sinfonia que embala a pequenez.
Por momentos, desejei estar de volta a tempos atrás, ao redor de uma mesa, com incontáveis peças de lego; eu criava meu mundo, eu vivia nele, eu era o roteirista, produtor, ator, diretor, arquiteto, figurinista, contraregra e sim, faxineiro (ou você acha que alguém limpava minha bagunça?). Aquele cenário era ditado pelo meu ritmo, eu criava os diálogos. Era o senhor do destino.
Agora só tenho uma caneta.
Que sequer é minha, detalhe, para escrever lamúrias mais parecidas com aquela filosofia barata de criança, “ninguém me ama, ninguém me quer”. Não leve essas palavras tão a sério. Creio eu que, estado grave na vida de um homem apenas quando só lhe resta reservar o pleno silêncio.
Eu também não bebo, só por acaso, quando não me resta nem o silêncio. Outros acasos são aqueles que me fazem sonhar, ainda agora, tal qual criança.
Os mesmos acasos que me deixaram na porta da tua casa, em plena luz do dia. E parecendo que já me esperava, convidou para entrar, e preencheu cada diálogo ou cena que minha mente previamente havia imaginado. Fez de mim sorrisos e saudade. Me fez entender que minha capacidade de sentir o mundo, mesmo só tendo uma caneta, me faz dono da história.
Com ela, posso escrever que o tilintar do gelo no copo de whisky passa a ter som de fim do dia e começo de promissoras noites, que caem, não mais em desgraça, mas em paixão (melhor em inglês, fall in love). Escrevo que o mundo exige aquilo que não sei como oportunidade de entender.
Entender que a cada noite, a gente se afunda, irremediavelmente, em doces devaneios e velhos desatinos.
Eu nem terminei minha dose de acasos de hoje, mas já escrevi todos os finais felizes. Todos com você. Como as histórias de crianças, que agora são grandes.




