Publicado por: contudo | 3 Novembro, 2009

Ensaios – Cap. XI

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Embora os temores de Paulo em relação à Sofia tivessem diminuído desde a última conversa, certos aspectos o deixavam intrigado. Ela parecia mais silenciosa. Em alguns momentos, se quedava a apenas observá-lo.

Ele próprio tinha pouca vontade de verbalizar seus pensamentos, preferindo um olhar platônico, formando versos e derrubando a imagem de Sofia em um mar de poesias tão profundas e intimas que causavam arrepios.

A mãe de Paulo estava muito feliz e tranqüila, com o novo emprego de Sandoval. Ela não sabia, porém, do segredo que ele havia revelado ao garoto. Paulo não falou, e Sandoval da mesma forma, o manteve em sigilo.

Os sonhos com a garota desconhecida agora não eram raros, embora não fossem freqüentes. Muitas vezes à mesa do café, Paulo se perdia em pensamentos tentando puxar da memória maiores detalhes, sem sucesso. Lembrava do sorriso, e da frase: “Você está bem?”.

A maior parte dos pensamentos de Paulo, no entanto, estava voltada a Sandoval. O poeta arranjara o emprego de guardião da biblioteca municipal, e saia cedo pela manhã, fazendo com que ele e Paulo conversassem pouco à noite, uma vez que dormiam relativamente cedo.

A revelação de que ele se esquecera do passado não deixara Paulo preocupado, pois não fazia diferença. Porém, o garoto achava que o poeta se sentia culpado por ter dito o segredo, talvez cedo demais.

Sandoval comentou certa vez, antes de ir se deitar:

-Sabe, tudo isso foi um erro.

-Isso o que?

-Essa coisa toda, eu não lembrar.

-O que tem de mais?

Os dois ficaram um instante em silêncio. Sandoval, mirava o chão, concentrado. Parecia ter dificuldade em formar o pensamento. As palavras que saíram da sua boca, a seguir, pareciam rasgar de dor sua garganta:

-Na verdade o que não tem. Você me acolheu, e nem me conhecia. Não existem corações assim no mundo. E o que te dou em troca? Um plano pra sair da sua convivência o mais rápido possível.

Paulo não parecia acreditar e resolveu quebrar o gelo:

-Te fiz um favor, você está apenas retribuindo-o. – respondeu o menino, rindo.

-Nunca dá pra falar sério com você. – retorquiu o homem.

-Se fugir com meu chinelo, eu te acho onde estiver.

Sandoval virou as costas, tirou o chinelo, e ao fechar a porta:

-O pijama eu levo. Nem que seja à força.

 

“Und er wird sagen: Ich sage euch: Ich kenne euch nicht, wo ihr her seid; weichet alle von mir, ihr Übeltäter (Lc 13:27)”


Respostas

  1. “E ele vos responderá: Digo-vos que não sei de onde vós sois; apartai-vos de mim, vós todos os que praticais a iniqüidade.”


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