Publicado por: contudo | 30 Novembro, 2009

Lar doce lar

O tempo corre. As semanas passavam como se não houvesse mais intervalos para um belo sorriso ou uma flor de laranjeira. Sarah passava a semana inteira indo e voltando dos mesmos lugares, vendo e encontrando as mesmas pessoas e voltando para a toca sempre ao som das mesmas badaladas e sempre se atirava nos lençóis brancos e quando via, era hora de levantar.

Quando tinha uma mísera folga, dava atenção para aquele que fazia suas tardes de sábado e domingo tranqüilas e frenéticas, aqueles que a tocava sem pudor, mas com todo o respeito e amor do mundo. Entregava a ele seus dois dias de descanso e voltava para casa ao som das mesmas badaladas dos dias de semana. Tudo voltava a ser como era nos dias comuns.

Com o passar do tempo esqueceu-se de como é bom acordar tarde e ver desenhos animados sem ter que se preocupar em levantar, de como é bom fazer um belo almoço, de como é bom passar a tarde deitada olhando o movimento das pessoas pela janela, de como é bom ter a companhia do pai nos domingos e de como as idas ao supermercado são motivos para grandes planos e reflexões.

Ah, como é bom!

Reconhecer o aconchego do lar, por mais simples que ele seja, cuidar para que tudo fique limpo para a semana que já vai começar, traçar seus objetivos com uma régua gigante e efetua-los com sucesso, ver que a casa te espera sempre com um bom leite quente e um travesseiro para descansar.

Às vezes a rotina nos leva aquilo que nos faz realmente felizes. A correria e as pessoas importantes tomam lugares estratosféricos no nosso dia-dia que nos fazem esquecer, ás vezes do nosso espaço. Aos domingos Sarah resolveu ficar em cassa e curtir tudo aquilo que o batente lhe tirara durante a semana. Aos sábados continua sendo feliz ao lado daquele amado de grandes cílios. De segunda à sexta, continua no mesmo lugar, nos mesmos horários e com o mesmo sorriso, apenas com um diferencial: louca pra voltar pra casa e sentir o cheiro de lar que há tanto tempo não pintava por estas bandas.

Ao meu amado: obrigada por este oitavo motivo para sorrir.

Publicado por: contudo | 24 Novembro, 2009

Reaprender a viver

Eu ainda relembro de alguns diálogos que tive com a minha vida. Isso quando ela ainda fazia parte de mim. Deixou-me faz algum tempo, com o pressuposto de que era incapaz de me fazer sorrir.

Imaginem vocês: minha vida me dizendo que se sentia incapaz de me fazer sorrir.

Eu ainda lembro.

Mas minha vida era casada com meu ego. Ela cansou dele. Meu ego me diz para esquecer. Mas como eu posso esquecer a minha vida? Virar as costas para ela, simplesmente?

Ah, eu ainda lembro os diálogos. Sob a cachoeira:

-Minha vida, promete que nunca me abandona?

-Lucas, eu nunca vou te abandonar.

Seria aquele um beijo de despedida?

O mundo busca viver mais.

Eu aqui, olhando minha vida viver. Sem mim.

Publicado por: contudo | 19 Novembro, 2009

Reaprender a enxergar

Naquela praça havia árvores. Barraca de cachorro-quente, cachorros vivos, crianças correndo e brincando. Canteiros de flores e caminhos para passear. E bancos, muitos bancos para ler, ver, pensar. E em um desses bancos, diariamente, sentava um garoto, e ali ficava durante as tardes.

As tardes o percebiam, mas não era recíproco. Ele não enxergava. Era deficiente visual. O senhor do cachorro-quente sabia, as flores, as árvores, o banco na praça e inclusive alguns cachorros, que volte e meia roubavam o último pedaço do seu sanduíche. Menos ela. Ela não sabia que ele era cego.

Sentou ao lado dele. Conversaram timidamente, ela falando e ele respondendo. E a cada tarde foi assim. Cada vez mais amigos, ele cada vez mais dependente daquela voz, da segurança e da calma dela perante as suas dúvidas e desassossegos. Conversavam sobre o banco, sobre as árvores, sobre as flores. Tão diferentes em cada modo de ver cada uma dessas coisas. Tão iguais pela diferença.

Durante oito meses, a razão de o menino ter vontade de acordar todas as manhãs era a espera pelo momento em que a encontraria. Mas ele achava que ela ainda não sabia da sua dificuldade. E naquela tarde contou. Abriu seu coração, disse que tinha dificuldades e que necessitava dela para mudar, entre outras coisas:

-E eu preciso de você. Eu te quero sentada do meu lado, aqui, amanhã.

Ela não voltou. Naquele dia, nem os cachorros o perturbaram. Ele esperou.

E chorou. Chorou como nunca. Foi um choro sincero. E em silêncio. Quando tornou a abrir os olhos, percebeu que enxergava novamente. Conseguia ver cada flor, cada criança, cada árvore. E o banco.

E percebeu que ela havia mudado sua vida. O fazendo sofrer, por ter abandonado quando ele precisava, ela o fez enxergar novamente. Com o choro do sofrimento, ele lavou sua alma profundamente, limpando todas aquelas sujeiras que o impediam de captar o mundo.

Ele não a esqueceu. Pois o tempo cura o ferimento, mas não apaga a cicatriz.

Essa fica, por tão longos sejam os dias das nossas existências.

Publicado por: contudo | 16 Novembro, 2009

One more time

Pela 19ª vez atravesso os 365 dias de um ano. Para muitos fazer aniversário é uma data para se festejar, ver entes queridos e acima de tudo ganhar presentes, mas para mim, uma paraense escorpiana, esta data representa muito mais que pacotes de presentes e velas acesas.

Apagada one more time

O fato de estar distante de tudo o que faz deste dia, 16 de novembro, um dos melhores do ano, me fez refletir o quanto a superação e a vontade de crescer foram decisivas neste ano que passou. Estar longe de casa, do meu travesseiro, das minhas cadelas, da minha culinária paraense e principalmente estar longe daqueles que me fazem sorrir todos os dias (mãe, irmão, amigos) me fez uma nova Lorena que hoje se satisfaz com um simples abraço e um olhar de: hoje é o seu dia!

Hoje faz um ano, três meses e 14 dias que eu pisei nas terras gaúchas e desde lá muita coisa mudou. Tenho um novo companheiro, fiz renascer minha relação com meu pai, descobri meu curso como jamais poderia ter descoberto em outro lugar, encontrei pessoas, fiz amigos, vi novas estrelas e fascinantes pores – do sol e pasmem, até pensei em ficar por estas bandas. Mas como diria o locutor da Rede Globo: essas são cenas dos próximos capítulos, por enquanto, estou cheia de amor e de luz pronta para entra na casa dos 20 e viver tudo isso one more time.

 

 

 

Publicado por: contudo | 5 Novembro, 2009

Dificuldade em respirar

 

Foto de Lucas Schwantes

Nuvens carregadas de um olhar desfocado

Já fica bem difícil para respirar.

Quando sempre achou que as pessoas só poderiam gostar dele se o conhecessem de verdade, concluiu que isso era certo.

Sem primeiras opiniões, sem arrogância aparente.

Isso é orgulho.

Quando suas convicções caíram por terra, percebeu que ninguém que o conhece de verdade pode gostar dele.

Contra todas as opiniões, com arrogância permanente.

Isso é fraqueza.

A vida não o libertou de si mesmo.

Nuvens carregadas no céu, será que era tão tarde assim?

Mais difícil para respirar.

Deve ser o efeito da cicuta. Ou do peso da consciência, ou ainda do coração de pedra.

Longo tempo agora, desde que vi você sorrir.

Eu posso mudar. Posso.

Diga se valia a pena me salvar.

 

 

Publicado por: contudo | 3 Novembro, 2009

Ensaios – Cap. XI

Para ler o Capítulo Xclique aqui.

Embora os temores de Paulo em relação à Sofia tivessem diminuído desde a última conversa, certos aspectos o deixavam intrigado. Ela parecia mais silenciosa. Em alguns momentos, se quedava a apenas observá-lo.

Ele próprio tinha pouca vontade de verbalizar seus pensamentos, preferindo um olhar platônico, formando versos e derrubando a imagem de Sofia em um mar de poesias tão profundas e intimas que causavam arrepios.

A mãe de Paulo estava muito feliz e tranqüila, com o novo emprego de Sandoval. Ela não sabia, porém, do segredo que ele havia revelado ao garoto. Paulo não falou, e Sandoval da mesma forma, o manteve em sigilo.

Os sonhos com a garota desconhecida agora não eram raros, embora não fossem freqüentes. Muitas vezes à mesa do café, Paulo se perdia em pensamentos tentando puxar da memória maiores detalhes, sem sucesso. Lembrava do sorriso, e da frase: “Você está bem?”.

A maior parte dos pensamentos de Paulo, no entanto, estava voltada a Sandoval. O poeta arranjara o emprego de guardião da biblioteca municipal, e saia cedo pela manhã, fazendo com que ele e Paulo conversassem pouco à noite, uma vez que dormiam relativamente cedo.

A revelação de que ele se esquecera do passado não deixara Paulo preocupado, pois não fazia diferença. Porém, o garoto achava que o poeta se sentia culpado por ter dito o segredo, talvez cedo demais.

Sandoval comentou certa vez, antes de ir se deitar:

-Sabe, tudo isso foi um erro.

-Isso o que?

-Essa coisa toda, eu não lembrar.

-O que tem de mais?

Os dois ficaram um instante em silêncio. Sandoval, mirava o chão, concentrado. Parecia ter dificuldade em formar o pensamento. As palavras que saíram da sua boca, a seguir, pareciam rasgar de dor sua garganta:

-Na verdade o que não tem. Você me acolheu, e nem me conhecia. Não existem corações assim no mundo. E o que te dou em troca? Um plano pra sair da sua convivência o mais rápido possível.

Paulo não parecia acreditar e resolveu quebrar o gelo:

-Te fiz um favor, você está apenas retribuindo-o. – respondeu o menino, rindo.

-Nunca dá pra falar sério com você. – retorquiu o homem.

-Se fugir com meu chinelo, eu te acho onde estiver.

Sandoval virou as costas, tirou o chinelo, e ao fechar a porta:

-O pijama eu levo. Nem que seja à força.

 

“Und er wird sagen: Ich sage euch: Ich kenne euch nicht, wo ihr her seid; weichet alle von mir, ihr Übeltäter (Lc 13:27)”

Publicado por: contudo | 28 Outubro, 2009

Cronistas Inglórios

Quentin Tarantino foi criticado por não ter sido fiel à realidade histórica em sua recente criação, “Bastardos Inglórios” (filme em cartaz no Brasil desde 09 /10/2009), no qual, entre outras partes do enredo, um grupo de soldados judeus faz com que nazistas tenham uma “queda de cabelos” prematura.

Quem já teve a ilustre oportunidade de analisar o filme deve ter compreendido que Tarantino não foi fiel. Ele fez uma releitura histórica, talvez como vingança. Aliás, esse é o tema de capa da Revista Época de 05/10: uma nova forma de retratar a guerra, optando por se vingar, mesmo que na ficção, de todo mal causado pelos nazistas.

A genialidade de Tarantino reside neste ponto: não ser fiel a história e ainda alimentar um desejo de grande parte das pessoas, a vingança. Os diálogos do filme são impressionantes, engraçados e polêmicos.

Aliás, nós cronistas, podemos não ser bastardos. Mas somos inglórios também. Retratamos a vida, as situações, não fielmente, mas baseados nos desejos que queremos. Tentamos montar uma realidade crítica, um sentimento de contrariedade, um desafio para que o leitor possa parar e pensar: “Eu posso mudar a história”. E além: sem precisar de obras cinematográficas.

Nós somos a nossa própria versão. Às vezes sem a genialidade de Tarantino nos diálogos, mas, precisamos de algo mais genial que um “Bom dia!” acompanhado de sorriso, pela manhã?

Ah, nós cronistas somos inglórios, mesmo. Mas sem intenção de mudar a história. Para essa missão, ainda existe o Tarantino.

 

BI

Cartaz italiano de Bastardos Inglórios

 

 

Obs.: Quem viu o filme tem que concordar que Cristoph Waltz, o intérprete do Coronel da SS, Hans Landa, merece o Oscar de melhor ator coadjuvante. Quem ainda não viu, preste atenção, e concorde também. Buongiorno! (L.S.)

Publicado por: contudo | 22 Outubro, 2009

3. subpensares

“Well, it’s been a long time, long time now”

"(...) fileiras organizadas circularmente (...)"

"(...) fileiras organizadas circularmente (...)"

Um passo após o outro. Por entre plantas rasteiras e luminárias de luz fraca. Mochila em um dos ombros, fones no ouvido. O ladrilhado leva a dois caminhos, de uma mesma capela colorida e redonda.

Mas prefiro entrar na porta que se abre a minha frente. Ao fundo, som de flauta. Esse som faz jus ao nome de “flauta doce”. Três colunas de bancos, enfileiradas poética e circularmente da mesma forma da estrutura.

A frente dos bancos, um altar. E nele, uma Cruz. Carrega minhas indiferenças.

Sento em um dos bancos almofadados. Recolho as pernas. A flauta silencia.

Pessoas gritam lá fora, lembrando que o mundo não parou de girar quando entrei naquela atmosfera leve. O tempo não para nunca. Mas eu paro, pra pensar.

Quando vou embora, não olho pra trás. Tenho certeza, amanhã voltarei.

Apenas para pensar, sobre o pensar.

Publicado por: contudo | 20 Outubro, 2009

Segunda reflexiva

Em certos momentos da vida Sarah se perguntou: porque escolhi estar aqui? Qual a minha verdadeira razão de respirar? E qual o melhor caminho a seguir para alcançar aquele pequeno pote de ouro no final do belo arco-íris?

As respostas fugiam de Sarah como os culpados da sirene desvairada dos carros iluminados.

Os dias chegam, o sol se apresenta e rotina de mais uma manhã se desenha na frente da nossa aventureira apaixonada como um belo cartaz feito das mais puras cores de uma aquarela. Para ela, levantar da cama se tornou um ritual matinal que não pode ser quebrado: olhos abertos, pedidos de sorte, pés no chão, havaianas, banheiro, chuveiro, toalha e escova de dentes.

Ela no meio deles

Ela no meio deles

O destino das suas saídas súbitas? É quase sempre o mesmo: a multidão louca das ruas de uma cidade do sul, com o frio rasgando a pele e os lábios, com esbarrões sem pedidos de desculpas, com expressões desconhecidas e com muita pressa nos pés, mas sem nenhum desejo no olhar.

Perdida neste mundo de perguntas que Sarah escolheu viver, pôde avistar de longe um boa razão para uma gargalhada digna de olhares assustados. Ao final da avenida, logo na esquina com a Rua 16 de novembro, enxergou alguém que provocava ao mesmo tempo calma e euforia no seu órgão vital. Ele era o piloto de sua mente. Esse alguém vinha em sua direção trazendo os ventos bem aventurados de uma terça-feira, trazendo os sorrisos de tempos passados, trazendo o verdadeiro cheiro das rosas, abrindo todos os caminhos de uma vida plena que estaria por vir.

Neste momento os outros passavam por ela como nuvens passam ao lado do avião em pleno vôo, como pequenos grãos de areia deixados para traz em uma praia deserta. Eles passavam sem nada a me oferecer.

Naquele instante magnífico, de glória absoluta para a amante Sarah, as respostas daquele questionário destemido que se alojou dentro do mais profundo batimento das suas veias veio à tona, como um vulcão cheio de força e calor: Nadar contra a corrente de almas que te invade todas as vezes que atravessas o portão de ferro que protege o teu castelo é uma tarefa para poucos. Eu digo, para poucos, mas este poucos são espécies de dragões ostensivos que veem a vida dos outros como uma possibilidade de aprendizado e que andam no meio das ruas de uma cidade sulista sem medo dos tropeços e com seu destino à vista.

Sarah sabia qual era seu destino naquela manhã em que o frio lhe rasgava e pele e os lábios, em que as pessoas apressadas a tocavam sem permissão em que o desejo era desconhecido. Seu destino estava nos braços daquele que a fazia sorrir do outro lado da rua, estava nos olhos de cílios grandes e loiros que aquele ostentava, estava na coragem e na soberana sintonia que os unia verticalmente e melhor ainda, horizontalmente.

No meio da nebulosa vida urbana é desumano não com quem se deitar em uma noite de segunda-feira, é desumano não ter com quem contar em horas em que o pranto é o único caminho, é desumano não ter quem fique em silêncio ao teu lado e desenhe com a ponta dos dedos todas as dobras dos seu corpo, é apenas isto, desumano.

Para que se perguntar sobre coisas que a vida não lhe mostrou a resposta? Tente se perguntar sobre aquelas coisas que fazem seu coração pulsar como de uma criança em épocas natalinas, sobre aquelas coisas que te fazem ganhar um mísero salário, mas que te completam mesmo sem cifrões estratosféricos, tente se perguntar. Essas são perguntas que podem criar seu questionário de reflexão e que no final de uma noite de segunda-feira poderão ser respondidas sem medo de arrependimentos ou dores, apenas com a certeza de que vivemos e somos humanos pelo questionamento constante da tão bela e “conhecida”vida.

Publicado por: contudo | 19 Outubro, 2009

2. Monologareiro

Faça Sol ou Chuva...

Faça Sol ou Chuva...

Tenho um chão, com azulejos

Brancos e beges, aqui e acolá

Tenho janelas molhadas

Com pingos d’água a varar

Vejo mesas e cadeiras

Uma cruz a descansar

Há pessoas matreiras

A desenhar, poetizar.

Cadernos, pastas e livros

Canetas, canudos, sorrisos.

Lâmpadas, não mágicas

Que iluminam meus desejos

Vejo os versos

O reflexo

No espelho

Um poeta

A monologar.

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