Batidas, no coração e na porta. E umas badaladas no relógio. Aqueles grandes e antigos, como esse monte de coisas que a gente sente e nem lembra. Que são quase como simples tradição. Paz, amor, saúde (“essa em primeiro lugar!”, diria alguém alto do espumante) e dinheiro, claro, o que todos -hipocritamente- negam e que a quase todos é negado. O tempo, muitas vezes todos negam também.
Engraçado, talvez ninguém goste daquele relógio ali, mas está ali há tanto tempo que ninguém sabe dizer o quanto. E como é o último dia do ano, afinal, ele vai ser útil para alguma coisa. ‘Que analogia banal!’ devem estar pensando vocês! E eu também, confesso. Comparar os sentimentos que afloram no final de ano com um relógio velho! Ah, o tempo e os sentimentos só lembrados a porta de mais uma mudança.
E quem diria, por alguma razão, esse relógio passa a correr mais rápido, criando perante seus olhos um turbilhão de acontecimentos que te levarão até o fim disso que até hoje você vem chamando de vida. Valeu a pena, diria você. Não me arrependo de nada, diriam uns outros. Me dê uma chance para viver mais intensamente, uma única chance, eu diria. Um fraco. Um egoísta.
Quero mais uma chance sim, não para ser egoísta, mas para partilhar. Egoísta me sinto quando me pego desejando a paz mundial, saúde a todos os povos. Não é palpável para mim, não está ao meu alcance. Quero partilhar aquilo que deixei trancado por um longo tempo. Quero abrir, porta e coração, no qual batem neste momento, e deixar que entrem ou saiam. Permitir em mim alguém que coloque tudo no lugar. Que faça haver luz onde antes estava escuro. Que encurte os momentos de saudade e faça os abraços se prolongarem. Um ser de humor ácido e beleza sulfúrica, tal qual seus sorrisos.
Apenas uma chance, é o que diz no relógio. Então abro a porta e lá está. Não há tempo a perder, penso. Então noto que o relógio não corre ao compasso normal, o que me garante ainda horas, semanas, meses de oportunidade. As badaladas anunciam que inicia um novo ano, uma nova vida, com diversos mesmos clichês.
De alguma janela, versos cantados de Drexler (…) “Tengo tu sonrisa en un rincón de mi salvapantallas” (…).
Tento teu sorriso, tudo tenho, como emblema de uma nova chance. Mas não custa nada querer ter também um bom Ano Novo. Nenhum dinheiro.
Quanto a mim, sorrio quando você pede a paz mundial, e fica triste por não poder. Você pode ter. Como? Tendo um mundo só seu. E como posso ter? Te ofereço o meu.




