Publicado por: contudo | 5 Novembro, 2009

Dificuldade em respirar

 

Foto de Lucas Schwantes

Nuvens carregadas de um olhar desfocado

Já fica bem difícil para respirar.

Quando sempre achou que as pessoas só poderiam gostar dele se o conhecessem de verdade, concluiu que isso era certo.

Sem primeiras opiniões, sem arrogância aparente.

Isso é orgulho.

Quando suas convicções caíram por terra, percebeu que ninguém que o conhece de verdade pode gostar dele.

Contra todas as opiniões, com arrogância permanente.

Isso é fraqueza.

A vida não o libertou de si mesmo.

Nuvens carregadas no céu, será que era tão tarde assim?

Mais difícil para respirar.

Deve ser o efeito da cicuta. Ou do peso da consciência, ou ainda do coração de pedra.

Longo tempo agora, desde que vi você sorrir.

Eu posso mudar. Posso.

Diga se valia a pena me salvar.

 

 

Publicado por: contudo | 3 Novembro, 2009

Ensaios – Cap. XI

Para ler o Capítulo Xclique aqui.

Embora os temores de Paulo em relação à Sofia tivessem diminuído desde a última conversa, certos aspectos o deixavam intrigado. Ela parecia mais silenciosa. Em alguns momentos, se quedava a apenas observá-lo.

Ele próprio tinha pouca vontade de verbalizar seus pensamentos, preferindo um olhar platônico, formando versos e derrubando a imagem de Sofia em um mar de poesias tão profundas e intimas que causavam arrepios.

A mãe de Paulo estava muito feliz e tranqüila, com o novo emprego de Sandoval. Ela não sabia, porém, do segredo que ele havia revelado ao garoto. Paulo não falou, e Sandoval da mesma forma, o manteve em sigilo.

Os sonhos com a garota desconhecida agora não eram raros, embora não fossem freqüentes. Muitas vezes à mesa do café, Paulo se perdia em pensamentos tentando puxar da memória maiores detalhes, sem sucesso. Lembrava do sorriso, e da frase: “Você está bem?”.

A maior parte dos pensamentos de Paulo, no entanto, estava voltada a Sandoval. O poeta arranjara o emprego de guardião da biblioteca municipal, e saia cedo pela manhã, fazendo com que ele e Paulo conversassem pouco à noite, uma vez que dormiam relativamente cedo.

A revelação de que ele se esquecera do passado não deixara Paulo preocupado, pois não fazia diferença. Porém, o garoto achava que o poeta se sentia culpado por ter dito o segredo, talvez cedo demais.

Sandoval comentou certa vez, antes de ir se deitar:

-Sabe, tudo isso foi um erro.

-Isso o que?

-Essa coisa toda, eu não lembrar.

-O que tem de mais?

Os dois ficaram um instante em silêncio. Sandoval, mirava o chão, concentrado. Parecia ter dificuldade em formar o pensamento. As palavras que saíram da sua boca, a seguir, pareciam rasgar de dor sua garganta:

-Na verdade o que não tem. Você me acolheu, e nem me conhecia. Não existem corações assim no mundo. E o que te dou em troca? Um plano pra sair da sua convivência o mais rápido possível.

Paulo não parecia acreditar e resolveu quebrar o gelo:

-Te fiz um favor, você está apenas retribuindo-o. – respondeu o menino, rindo.

-Nunca dá pra falar sério com você. – retorquiu o homem.

-Se fugir com meu chinelo, eu te acho onde estiver.

Sandoval virou as costas, tirou o chinelo, e ao fechar a porta:

-O pijama eu levo. Nem que seja à força.

 

“Und er wird sagen: Ich sage euch: Ich kenne euch nicht, wo ihr her seid; weichet alle von mir, ihr Übeltäter (Lc 13:27)”

Publicado por: contudo | 28 Outubro, 2009

Cronistas Inglórios

Quentin Tarantino foi criticado por não ter sido fiel à realidade histórica em sua recente criação, “Bastardos Inglórios” (filme em cartaz no Brasil desde 09 /10/2009), no qual, entre outras partes do enredo, um grupo de soldados judeus faz com que nazistas tenham uma “queda de cabelos” prematura.

Quem já teve a ilustre oportunidade de analisar o filme deve ter compreendido que Tarantino não foi fiel. Ele fez uma releitura histórica, talvez como vingança. Aliás, esse é o tema de capa da Revista Época de 05/10: uma nova forma de retratar a guerra, optando por se vingar, mesmo que na ficção, de todo mal causado pelos nazistas.

A genialidade de Tarantino reside neste ponto: não ser fiel a história e ainda alimentar um desejo de grande parte das pessoas, a vingança. Os diálogos do filme são impressionantes, engraçados e polêmicos.

Aliás, nós cronistas, podemos não ser bastardos. Mas somos inglórios também. Retratamos a vida, as situações, não fielmente, mas baseados nos desejos que queremos. Tentamos montar uma realidade crítica, um sentimento de contrariedade, um desafio para que o leitor possa parar e pensar: “Eu posso mudar a história”. E além: sem precisar de obras cinematográficas.

Nós somos a nossa própria versão. Às vezes sem a genialidade de Tarantino nos diálogos, mas, precisamos de algo mais genial que um “Bom dia!” acompanhado de sorriso, pela manhã?

Ah, nós cronistas somos inglórios, mesmo. Mas sem intenção de mudar a história. Para essa missão, ainda existe o Tarantino.

 

BI

Cartaz italiano de Bastardos Inglórios

 

 

Obs.: Quem viu o filme tem que concordar que Cristoph Waltz, o intérprete do Coronel da SS, Hans Landa, merece o Oscar de melhor ator coadjuvante. Quem ainda não viu, preste atenção, e concorde também. Buongiorno! (L.S.)

Publicado por: contudo | 22 Outubro, 2009

3. subpensares

“Well, it’s been a long time, long time now”

"(...) fileiras organizadas circularmente (...)"

"(...) fileiras organizadas circularmente (...)"

Um passo após o outro. Por entre plantas rasteiras e luminárias de luz fraca. Mochila em um dos ombros, fones no ouvido. O ladrilhado leva a dois caminhos, de uma mesma capela colorida e redonda.

Mas prefiro entrar na porta que se abre a minha frente. Ao fundo, som de flauta. Esse som faz jus ao nome de “flauta doce”. Três colunas de bancos, enfileiradas poética e circularmente da mesma forma da estrutura.

A frente dos bancos, um altar. E nele, uma Cruz. Carrega minhas indiferenças.

Sento em um dos bancos almofadados. Recolho as pernas. A flauta silencia.

Pessoas gritam lá fora, lembrando que o mundo não parou de girar quando entrei naquela atmosfera leve. O tempo não para nunca. Mas eu paro, pra pensar.

Quando vou embora, não olho pra trás. Tenho certeza, amanhã voltarei.

Apenas para pensar, sobre o pensar.

Publicado por: contudo | 20 Outubro, 2009

Segunda reflexiva

Em certos momentos da vida Sarah se perguntou: porque escolhi estar aqui? Qual a minha verdadeira razão de respirar? E qual o melhor caminho a seguir para alcançar aquele pequeno pote de ouro no final do belo arco-íris?

As respostas fugiam de Sarah como os culpados da sirene desvairada dos carros iluminados.

Os dias chegam, o sol se apresenta e rotina de mais uma manhã se desenha na frente da nossa aventureira apaixonada como um belo cartaz feito das mais puras cores de uma aquarela. Para ela, levantar da cama se tornou um ritual matinal que não pode ser quebrado: olhos abertos, pedidos de sorte, pés no chão, havaianas, banheiro, chuveiro, toalha e escova de dentes.

Ela no meio deles

Ela no meio deles

O destino das suas saídas súbitas? É quase sempre o mesmo: a multidão louca das ruas de uma cidade do sul, com o frio rasgando a pele e os lábios, com esbarrões sem pedidos de desculpas, com expressões desconhecidas e com muita pressa nos pés, mas sem nenhum desejo no olhar.

Perdida neste mundo de perguntas que Sarah escolheu viver, pôde avistar de longe um boa razão para uma gargalhada digna de olhares assustados. Ao final da avenida, logo na esquina com a Rua 16 de novembro, enxergou alguém que provocava ao mesmo tempo calma e euforia no seu órgão vital. Ele era o piloto de sua mente. Esse alguém vinha em sua direção trazendo os ventos bem aventurados de uma terça-feira, trazendo os sorrisos de tempos passados, trazendo o verdadeiro cheiro das rosas, abrindo todos os caminhos de uma vida plena que estaria por vir.

Neste momento os outros passavam por ela como nuvens passam ao lado do avião em pleno vôo, como pequenos grãos de areia deixados para traz em uma praia deserta. Eles passavam sem nada a me oferecer.

Naquele instante magnífico, de glória absoluta para a amante Sarah, as respostas daquele questionário destemido que se alojou dentro do mais profundo batimento das suas veias veio à tona, como um vulcão cheio de força e calor: Nadar contra a corrente de almas que te invade todas as vezes que atravessas o portão de ferro que protege o teu castelo é uma tarefa para poucos. Eu digo, para poucos, mas este poucos são espécies de dragões ostensivos que veem a vida dos outros como uma possibilidade de aprendizado e que andam no meio das ruas de uma cidade sulista sem medo dos tropeços e com seu destino à vista.

Sarah sabia qual era seu destino naquela manhã em que o frio lhe rasgava e pele e os lábios, em que as pessoas apressadas a tocavam sem permissão em que o desejo era desconhecido. Seu destino estava nos braços daquele que a fazia sorrir do outro lado da rua, estava nos olhos de cílios grandes e loiros que aquele ostentava, estava na coragem e na soberana sintonia que os unia verticalmente e melhor ainda, horizontalmente.

No meio da nebulosa vida urbana é desumano não com quem se deitar em uma noite de segunda-feira, é desumano não ter com quem contar em horas em que o pranto é o único caminho, é desumano não ter quem fique em silêncio ao teu lado e desenhe com a ponta dos dedos todas as dobras dos seu corpo, é apenas isto, desumano.

Para que se perguntar sobre coisas que a vida não lhe mostrou a resposta? Tente se perguntar sobre aquelas coisas que fazem seu coração pulsar como de uma criança em épocas natalinas, sobre aquelas coisas que te fazem ganhar um mísero salário, mas que te completam mesmo sem cifrões estratosféricos, tente se perguntar. Essas são perguntas que podem criar seu questionário de reflexão e que no final de uma noite de segunda-feira poderão ser respondidas sem medo de arrependimentos ou dores, apenas com a certeza de que vivemos e somos humanos pelo questionamento constante da tão bela e “conhecida”vida.

Publicado por: contudo | 19 Outubro, 2009

2. Monologareiro

Faça Sol ou Chuva...

Faça Sol ou Chuva...

Tenho um chão, com azulejos

Brancos e beges, aqui e acolá

Tenho janelas molhadas

Com pingos d’água a varar

Vejo mesas e cadeiras

Uma cruz a descansar

Há pessoas matreiras

A desenhar, poetizar.

Cadernos, pastas e livros

Canetas, canudos, sorrisos.

Lâmpadas, não mágicas

Que iluminam meus desejos

Vejo os versos

O reflexo

No espelho

Um poeta

A monologar.

Publicado por: contudo | 15 Outubro, 2009

O que vai e o que fica

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Clarice, minha pequena, em teus sete anos de diálogo com o sol, aprendeste que a vida é um caracol de dentro pra fora, aprendeste que é fácil ver o som do vento e ouvir o cheiro da terra, que podes voar em bando deitada na grama molhada do jardim de tua mãe. Tenho a suspeita de que aprendeste todos os segredos da vida e que guardaste todos eles debaixo do teu pequeno travesseiro para poder mergulhar nos sonhos como quem procura ouro no mar.

Saiba que me vou, mas não sem levar teu sorriso de lua minguante cravado nos olhos. Alias, se pudesse pedir algo, pediria para continuar te vendo, mesmo no outro lado. Te ver pra sempre. Sorrindo.

Sexta passada trouxeram a noticia de minha ida num bilhete, desses que se usam pra pagar o trem aos domingos, muito apropriado para alguém como o teu velho, que fez da vida um delirante trapézio de algazarras.

Sabe, meu anjo, queria levar um pedacinho de ti. Queria mas não posso. Nessa louca armadilha em que nos metemos eu e tu, me ensinaste a devorar as nuvens como se fossem algodão doce, me ensinaste que o sorriso de “boa noite” é um labirinto de cores sem fim. Coisas que os livros não ensinam.

Quando eu partir, não chora. Não sem antes me emprestar um guarda chuva, porque quando tu chora, chove vidro moído dentro de mim.
Sorria. Abre a porta e vislumbra o vento dançando em tua sala, agradeça e peça perdão pela demora. E canta, porque cantar é menosprezar a desgraça de viver. Canta que eu escrevo. Porque escrever é gozar o diabo em preto e branco. Pega na mão do teu avô e caminha pelos nós das linhas turvas de uma vida que passou, um dia, teus netos hão de fazer o mesmo e aí saberás que viver não foi pecado.

(B.G)

Publicado por: contudo | 14 Outubro, 2009

Da Princesa ao Bobo da Corte

Já vimos o clamor desesperado de um Bobo da Corte, para que a sua princesa voltasse à razão:

http://contudo.wordpress.com/2008/10/24/do-bobo-da-corte-a-realeza/

Pois que agora ela responde…

Sim, querido, falhei e não podia. Desisti e não deveria. Você que só quer me ver sorrir, sabe o quanto sofri, mas não merece passar a amargura raquítica que passou meu coração.

Aquele que um dia disse belas palavras me prometeu o amor, para longe foi sem nem mesmo causar temor, só o ódio, por me fazer acreditar que seria mais feliz do que um dia fui ao seu lado, caro amigo.

E agora, olho ao longe no horizonte, o sol se põe, se esconde contra a terra, para reaparecer amanhã do outro lado. E disso posso ter certeza? Brilhará novamente em minha vida, ou me abandonará na escuridão?

Nem as dúvidas me restavam mais, só me restou o seu clamor, para que voltasse a ser e sorrir, a pensar e sentir. E o que me adiantava chorar ou sentir ódio. Agora eu lhe ouço, caro amigo. Agora me lembrou a mim, sou princesa.

Voltei, graças a você, caro amigo, para quaisquer um mero bobo da corte. Para mim um bobo, mas nunca um tolo. Aliás, se és um bobo, que sou eu?

Não mais haverá injustiça, sou real, nem nada com o coração; ele é vital, bate e espalha amor. O amor faz com que percamos a razão. Mas sem amor, qual a razão da vida?

Publicado por: contudo | 6 Outubro, 2009

Letras de Reflexão

Estávamos Eduardo e eu, ontem, conversando sobre algumas coisas. Nada de muito sério ou relevante. Ainda assim, o assunto sobre o qual falamos me deixou pensativo, refletindo, com uma vontade imensa de escrever.

De qualquer forma, eu postaria um texto hoje, mas algo mais descontraído, talvez mais uma poesia que fiz na aula de Teorias do Jornalismo. Mas, como aprendi nesta própria aula, a pauta quebrou.

Vou apenas colocar a minha interpretação das coisas, do que falávamos. Talvez Eduardo ainda faça uma análise mais completa, pois como eu falei: “isso daria um bom post”. Enfim, vamos a ele.

Comentar sobre a vida é como musicar poesias. São versos, palavras soltas, a favor das quais lutamos para rimá-las. Não obstante, a música faz parte de nossas vidas. Marca momentos, alegrias e tristezas, normalidades ou formalidades.

Ontem, o Eduardo me mostrou uma dessas que levamos conosco no pensamento. O gosto na questão de estilo é relativa, mas a letra, não há quem não se sinta dentro dela, vivendo um pouco de cada palavra.

O nome da faixa é “Day ‘n’ Nite” do rapper Kid Cudi e mostra um homem em ponto de reflexão. A letra toda é muito constante e boa, mas um trecho chama a atenção:

“When the time slows up and creates that new, new.


He seems alive, though he is feelin blue”

Desacelerar o tempo e criar o novo, fugir da rotina. Sair dela, dar um passo pra fora. Refletir.

Parecer sobreviver, mesmo triste.

Sobreviver tristes, queridos, é viver na rotina. A nossa proposta aqui no blog é dar um clarão nessas nuvens da rotina. Te fazer sorrir, te fazer pensar. E ainda mais: sorria e reflita muito mais além que aqui. Sorria pra vida.

“To free his mind in search of…”

Pra libertar sua mente na busca de…

Complemento: daquilo que te faça feliz. Viver feliz, não apenas sobreviver triste.

Publicado por: contudo | 1 Outubro, 2009

O ENEM foi cancelado

Por incompetência.

Aliás, uma dupla incompetência: do MEC, que de uma forma inacreditável, deixou vazar a prova mais importante do país, que dá acesso ao ProUni, e serve não apenas como avaliação da capacidade dos alunos de Ensino Médio, mas a partir desse ano, como um complemento no acesso ao Ensino Superior.

A outra, obviamente, do “inteligente” senhor que resolveu informar um jornal, leia-se um “JORNAL”, de que estavam em poder dele, cópias das provas. Quanto este indivíduo tiraria se fizesse a prova? Imaginem a qualidade da sua redação…

Mais de 4 milhões de brasileiros estão inscritos para realizar as provas, que devem ser adiadas por cerca de 45 dias. Alívio para alguns, traduzido em mais tempo para estudar.

Toda esta novela é digna do Brasil. Mas é um golpe. Achamos que a corrupção só vinha de cima, políticos e donos do poder. Saber que dinheiro é mais importante que a honra ainda choca quando se trata de pessoas comuns. Aquelas que trabalham de sol a sol pra sustentar os filhos.

E mal tem tempo pra ver na televisão, ou ler ou ouvir essa barbaridade. Tem que dormir cedo, pra não ouvir o choro do filho com fome. O choro de uma criança não vale R$500 mil. Vale muito mais.

E faríamos tudo igual. Reflita.

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